sábado, 12 de setembro de 2009

Nota nº 35 ou o Partir

Ele olha o teto quando acorda. Mira o branco sem dizer nada. Eu, que o vejo por fora, sei que está cansado. Súbito, uma lágrima escorre do olho direito. Queria tocá-lo e dizer escuta, não pense que está sozinho, sei lhe escutar, sei o que sonha. Mas tenho o defeito de não existir. Ele, sim, existe profundamente. Sei que isso o fere, como uma pedra cheia de pontas. Talvez ele devesse levantar, escovar os dentes, fazer a barba, sair e correr para entregar o que lhe pediram dentro do prazo. Mas fica na cama e lágrimas. Seu rosto já mudou absolutamente em um caos em vazio. O que você quer? Silêncio: sei que não me ouve. Se ao menos tivesse força para levantar, se olhar no espelho. Não: teria pena de si mesmo e de toda sua fraqueza corporal. O sofrer é um grito do corpo. Não sei onde se o acha, se no peito, na perna, no nariz, no coração, meu deus: se o acha? Mas já são nove horas, está atrasado, tem medo do que vai ouvir quando chegar, ainda em lágrimas, dizendo não consegui acordar na hora, me desculpe, não vai acontecer de novo, eu prometo. Mas continua horizontal e prestes à morte. Sei que se concentra para construir uma lucidez terrestre, portanto viva e respirante – ele respira mal por ter fumado quase um maço inteiro ontem à noite. A lucidez de ter olhos para ver. Isso é perigoso, ele sabe: ver é de um largo perigo: pode se perceber fraco, morto, preguiçoso, covarde. Então vai ser um desvario de perguntas e cigarros e ele vai querer partir – para onde? não importa, sempre partir para um lugar que não guarde o nome deste, até que ele seja outro para outros, até que ele faça arte como não faz, até que esteja preparado para partir absolutamente, inteiramente, corporalmente e infinitamente. Partir e só. Se levanta, vai ao banheiro, se olha no espelho. Não sente vergonha: não sente nada. Vai para a varanda, acende um cigarro, já são onze e meia. Não tem mais pressa. Seu olhar é feito de retinas, verde e abismos negros. Eu, que ainda o vejo, a mim a fumaça me distrai. Talvez também acenda um cigarro, poderíamos conversar. Você poderia me contar sobre o que habita seus pensamentos, seu corpo. Mas ele apaga o cigarro, veste uma roupa bonita, se perfuma e sai olhando o relógio. Deito na cama dele, sinto seu cheiro, seu calor. Olho para o teto branco. Como numa explosão, emerge de mim uma lágrima densa. Olho para o branco. Não me reconheço o nome. Sei intimamente que são quase nove horas. Então, meu rosto é uma enchente e uma despedida. Estou na cama e estou atrasado. Preciso partir. Partir absolutamente.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Nota nº 34 ou Isto

"Aqui me sinto bem escondido. Neste espaço em que me lês, sei que me teatralizo, me dramatizo e minhas palavras são gestos de um ator. Tudo que digo é mentira, porque não está, como a pedra que está lá fora. A pedra é cheia de si e corta minha pele se eu a forçar contra meu peito. O que lês, existe quando lês e, então, o que escrevo é como a pedra que corta. Mas isto que vês, é meu palco infinito. Nele, há espaço suficiente para eu não saber que eu sou. E isso me deixa cheio de alegria e densidade. Percebi simplesmente, num dia desses, que meu palco está aí. Aqui, não sei que eu sou e isso me é de um prazer sem limites. Cada coisa que falo é do outro. Cada idéia é uma explosão em fúria. Aqui eu é niguém. Tudo é visível absolutamente. "

segunda-feira, 16 de março de 2009

Nota nº 33 ou A Des-Aula,

com pitadas do Caeiro em mim
(ok: talvez com o molho inteiro)


[Esta nota vai ser um poema]


Esta aula não cabe em um poema.
Só um poema cabe em um poema.
O vento e as árvores lá fora cabem no poema.
O inseto voando e existindo cabe no poema.
Eu, que está longe, eu cabe no poema
(mas eu está escondido até de mim mesmo).
Esta aula não está nesta aula porque aqui
aqui o falado está longe dos meus olhos,
está perto de um lugar que eu não gosto de ir.

Esta aula caberia num poema,
esta aula fala de coisas que não existem nesta aula.
Mas a menina com tédio, ela cabe.
O menino com medo contido, ele cabe.
A caneta caindo, ela (que já caiu) ela, sim, cabe.
Mas as coisas que aqui são como rainhas
essas coisas estão longe de mim, criança sentada no chão brincando de bola de gude e não fazendo mais nada.


Esta aula não existe e eu não gosto dela.
Eu gosto do canto se cantando lá fora
e da árvore que não sabe que existe, nem divide seu discurso em funções de linguagem.

Eu não gosto desta aula.
Esta aula não cabe no poema
e está longe de mim como as coisas que não vejo
e não existem para meus olhos.

Eu não queria escrever este poema.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Nota nº 32 ou Obrigado, Caeiro.

Não venha me dizer que o que digo é mentira. Se eu as digo, às coisas que digo, então não é evidente que elas sejam verdade? Falo em uma flor de pétalas brancas de cujas pétalas uma foi eleita aeroporo de um besouro verde e brilhante. Não está vendo o que digo? pois que isto existe. Um fingimento só é fingimento se for verdade. Senão é fingimento mal feito e existe como fingimento mal feito e não como fingimento-só. A Arte é uma possibilidade da realidade e é feita de realidade. Só alcançamos as coisas que sind mit uns verwandt. Sou tão real quanto Dom Casmurro, quanto Lóri, quanto Steppenwolf ou quanto Hamlet. Sei que o que não cria está morto. Sei que o que respira e o que não respira, essas coisas todas estão inflamadas com o fato de existirem. Estar é de uma dor contínua e sagrada. Dizer as coisas é cuspir matéria-Deus em teus olhos. E também não venha dizer que o que digo é filosófico: não é. O que me faz dizer essas coisas são meus olhos nus que vêem as coisas, não minha idéia que tenho delas. Estou vivo extremamente. Isso é simples e real como uma pedra. Sou uma pedra que se vê. E isso é meu castigo e minha benção.

Estar vivo é para antes de qualquer mistério.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Nota nº 31 ou Uulnus

Dea feminarum
Oculus pueri est deam
Dea est fistula sacra pueri
Dea est mors beata.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Nota nº 30

Quase quatro da manhã. E eu aqui, dentro dessa noite, desse silêncio. Acabei de ler Drau(ss)en vor der Tür, do Wolfgang Borchert. Muito bom, muito bom. Estava lendo Nietzsche nessa sala, nessa noite. Mas tive que parar um pouco. A lua está forte lá fora, sabe. E alcançar os montes é doloroso às vezes. Mas eu prefiro. Melhor que não saber deles. Ah (momento de leveza): minha mesa da sala está do jeito que eu gosto: no meio, uma flor branca. Espalhados sobre ela, um dicionário de Alemão, O Mundo de Sofia (?), dois Nietzsches, o Borchert, o Steppenwolf do Hesse, um Kafka (!) (que eu achei incrivelmente entre os livros de meu pai (não porque meu pai não pudesse lê-lo, mas porque eu nunca tinha dado por mim da existência de um Kafka na minha infância aqui em casa (evidente que um Kafka não devia ser mais atrativo que os meus bonecos))), dois lápis, um caderno cheio de anotações, jazz, e ranger de dentes - no bom sentido, naturalmente. Enfim. Quem sabe nasce alguma coisa hoje ainda. O post foi só para voltar mesmo. Para não enferrujar. Sabe como é. Se morre todos os dias. Eu não quero parecer morto.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Nota nº 29 ou O Jogo Experimental

Cai do vigésimo terceiro andar uma gota de suor seca, depois explode no olho de um homem. Escorre pela face fria, corre para os lábios cinzas. Sentiu a gota, quente e salgada, queimar a garganta sem voz. E, dentro do corpo, aquela água se dilui.

[...]

O jogo é um ato do prazer ou do vício. No caso, dos dois.

[...]

Amanhã é dia de viajar. Calçar o chão nos dois pés, logo cedo. Depois é gostar do estado de trânsito. E brincar com uma rosa-dos-ventos.