O corpo vai deixar esse espaço. Sinto que será preciso colocar as coisas que falam comigo nele. As coisas que me falam a mim. Como se eu precisse colocar no mundo a minha história com elas. Desse jeito – e só desse – eu me sentirei dentro. / Eu vejo esta sala quando entro. A sala é o primeiro espaço que me engole da casa. Lembro de que, quando voltava de longos períodos em outros lugares, meu primeiro susto era o cheiro da madeira. O chão é feito de madeira e ele exala um cheiro opaco que era o meu susto quando voltava. Lembro de ficar alguns segundos, estático à porta, para me acostumar. O que me caia com certo prazer, porque o cheiro é gostoso e meu. / A sala sempre foi o membro mais volátil da sala. Porque sempre foi cheio de mutações e porque ali as coisas todas têm um caráter fugás. Tudo que entra na casa passa pelo cheiro da madeira. / O tapete de pele de carneiro se tornou uma ferida na pele da madeira. Um espaço que inflamou e ficou mais líquido. É a camada do chão sobre a qual mais gosto de pisar. / As paredes têm pele verde. Nela estão dispostos alguns quadros. O maior deles não me agrada porque não diz coisa alguma. Há outros que são antigos e que me parecem estáticos e em silêncio. Parece que a pele da parede já os recebe como que intrinsecamente. E isso lhes tira a mim a voz deles. A parede parece morta e isso é minha única dor à sala. / É o espaço mais amplo da casa. Cabe mais ar. Sinto o corpo mais livre. / ...
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