sábado, 19 de março de 2011
Nota nº 57 ou Talvez eu possa te olhar nos olhos grande
Estou no corpo. O estar no corpo é o estar no dentro. Escrevi em vida poemas e cartas que nunca enviei. Isso também sou eu estando no dentro. Pois que na vida de uma coisa que escreve chega a hora de sangrar um pouco. O para dentro me é ser o corpo. O para fora me é: ?. Não sei que parte dos meus olhos esqueceram de ver isto. O que é o de lá. Então me ser o corpo também é me deixar de sê-lo. E isso é estar fora. Me irrito com o tom pensamental dos meus textos. Quero uma coisa outra que seja um susto mais completo. Também quero uma paixão. Um grito qualquer que me faça sentir vivo e foradentro. Pois talvez eu possa falar no amor. Talvez eu possa te olhar nos olhos grande. Que na minha história eu me fiz como pergunta. Chega uma hora em que é preciso ser. Chega uma hora em que é preciso acordar cedo e se fazer vivo. Um dia se acorda, se explode, se morre. Ao mesmo tempo. Quero meu tom maior. Quero da vida o que eu eu puder fazer de mais largo nela. Eu me sou dor todo nisso. Mas é preciso ser vivo, é preciso falar de amor, é preciso cometer algumas densas loucuras. Por isso eu escrevo. Por isso eu não escrevo. Tem dias em que eu largo esse palco e me deixo habitando o mundo. São dias em que eu estou para o ar. Ontem li durante a madrugada inteira. Hoje vou fazer o seguinte: quando for uma da manhã, pego minha bicicleta e vou até achar um lugar que eu não conheça. Se possível, volto. Se não, você não ouve nunca mais de mim. Mas falar no amor me anda sendo sem voz. Não ouço minha voz íntima no falar do amor. No falar do amor não ando tendo voz que se faça coisa neste mundo. Dor. O absurdo do corpo parar. A morte. A impossibilidade de um grande amor. Você sabe como essas coisas doem. Você sabe o que é não ter cheiro? O que é acordar sem gosto no corpo? Derramar, líquido, corpo, pedra, ponte, nada. Se eu atentar fundo, sinto meu coração me avisando em contínuo: você está vivo, você está vivo. Meus pulmões, mesmo que sujos, me dizendo: você respira, você respira. Mas absurdamente eu vou morrer. Eu e você. E todas as coisas que estão. /// Não nos restando nada, se deite na minha cama e me ame. // Então quando eu vir as coisas nítidas, as coisas vivas e as mortas, eu vou poder ser movimento. Quando eu for capaz de te amar sabendo que você e eu vamos morrer, eu vou poder estar vivo. Então nós poderemos suportar o Absurdo juntos, você-em-você, eu-em-mim. Eu vou poder te deixar dormindo, quando acordar, e correr para as coisas minhas. Você também. Um dia, nós partiremos, dizendo adeus. Se for você quem me deixar, eu vou sofrer por não mais te ter à vista. Se for eu a partir, você talvez chore, eu vou chorar também. No dia seguinte, eu visto meus pés no chão. /// Dos absurdos da vida, você deve saber, o amor é o que mais me dói. Mas se você aparecer hoje, meu amor, eu vou explicar. Eu espero que você entenda. Espero que você não me ache louco, pelo menos não tanto. Apesar de tudo, eu quero você aqui, deitada e nua para eu poder te olhar. E te ter. Mesmo sabendo que você não vai ser para até o depois. Eu acho que eu queria era te explicar essa minha vontade de estar vivo. Eu morrendo, essas coisas não valem nada. E sendo absurdo o amor, a vida, essas coisas todas, eu vou te deitar aqui, no meu canto, nas coisas com o meu cheiro. Deixa eu te falar uma coisa. É difícil até eu falar. Mesmo com tudo isso, mesmo com as coisas morrendo, com os horrores e as alegrias da gente. Mesmo sabendo que você vai morrer. Mesmo sabendo que eu estou a caminho do mesmo fim. É que. É que mesmo assim eu vou te amar.
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2 Comentário(s):
tem pessoas que nascem para escrever. queria ser uma delas.
Tem pessoas que nascem para escrever. Queria ser uma delas [2].
Foi um dos textos seus que eu mais gostei, meu amigo. Apesar de falar da morte, fala do amor e não há nada mais vivo e intenso que o amor.
Lindo, lindo =)
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