domingo, 27 de março de 2011

Nota nº 59 ou EU VOS INCITO A LUTARDES

"Uma flor nasceu na rua". Os versos que eu lembrava do poema de Drummond não paravam de vir à minha cabeça. Hoje fez calor e o sol ficou mais largo no Leblon. Eu vi com os meus olhos jovens, na maioria entre os 15 e os 20 anos, acordarem "cedo" e migrarem para o posto 12. O que procuram? me perguntei. "Devo seguir até o enjôo? Posso, sem armas, revoltar-me?" Drummond continuava em meu ouvido. O sol se adensava naturalmente conforme chegava ao meio dia.  "Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse". Hoje eu vi os homens querendo algo de grande. Não pretendo aqui falar da luta desses jovens contra a energia nuclear em si. Isso não foi o que mais me espantou. O meu susto está na vontade delas e no sonho. Não sei que explosões no decorrer da história universal foram precisas para que essas três - a Hannah, a Manuela e a Helena, criaturas cheias - sonhassem a manhã de hoje. O grande lance é: jovens que poderiam estar se alimentando de merda, abriram a boca com todos os dentes com o intuito de lutar por algo que seja uma luta, em última análise, pela vida e pela nossa humanidade. Houve um grande happening hoje no acontecer de todas as coisas do mundo. "Vomitar esse tédio sobre a cidade", me disse o poeta. "Todos os homens voltam para casa. Estão menos livres mas levam jornais. E soletram o mundo, sabendo que o perdem", completou magistralmente. Nisso, um senhor de seus quarenta anos, passou correndo por nós, apontando para a própria cabeça e dizendo "burrice!, burrice!". Não pude deixar de imaginar a vida desse homem, chegando em casa, tirando os sapatos, acendendo um cigarro, a mulher, tão cansada quanto ele, pergunta "como foi sua caminhada desse domingo?", ele respondendo "foi boa como sempre, mas tinha uns manifestantes idiotas achando que sabem alguma coisa sobre energia nuclear". "É..." ela comenta "... esses jovens não têm jeito mesmo. Um dia eles aprendem". Então ela se levanta e vai para o banheiro chorar em segredo, que alguma coisa íntima na vida dela não faz sentido algum. Ele não vai chorar, que ele é mais forte. Deve morrer antes mesmo de pensar nisso. "Uma flor nasceu na rua!" Ouvi em grito. Então senti densa emoção pelo meu corpo todo. E fiquei a observar aquelas pessoas, gritando, em coro, encorajando os passantes a se aproximarem da corrente humana, que foi idealizada a partir de um movimento similiar na Alemanha, que teve sei lá quantos muitos manifestantes. Aqui, a corrente ficou pequena. No total, acho que não passamos de 50. "Uma flor nasceu na rua!" ouvi mais uma vez. "Passem longe bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Um flor, ainda desbotada, ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios. Garanto que uma flor nasceu. Sua cor não se percebe, suas pétalas não se abrem, seu nome não está nos livros. É feia. Mas é realmente uma flor." Não conseguimos chegar ao Leme, como era a ideia primeira. Mas conseguimos alguma coisa, cujo eco, creio, não seremos capazes de identificar por completo. O dia de hoje foi um grito. Pelo movimento, pela morte da monotonia que se alastra como um denso veneno no espírito dos homens contemporâneos, com suas novelas e pílulas de sono.

A estátua do Drummond fica na praia de Copacabana. Fato é que não chegamos até lá dessa vez.  Mas, quando tudo acabou, peguei minha bicicleta, fui até a estátua (como se a fome não existisse), sentei ao lado do poeta e disse "escuta, meu amigo. Eu vou te prometer o seguinte: quando eu chegar aqui da próxima vez, você vai ver a beleza e o poder do grito dessa juventude". Ele não disse nada. Quando me afastava, ouvi em alto tom, em minha própria voz, o último verso do Flor e a Náusea caindo, lúcido e perfeito, nos meus ouvidos: "É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio".

 

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