sexta-feira, 1 de abril de 2011
Nota nº 60 ou Sexta-feira: Ser Grande
Nesta sexta vamos fazer o seguinte: olhar as janelas do prédio em frente até descobrir uma vida triste (sempre haverá pessoas tristes). Procurar nesta casa algum cheiro novo. Sair. Ir à praia, andar nela até encontrar um amor antigo. Lembrar que eu também tenho história. Se não encontrar ninguém, conversar com um vendedor peruano. Perguntar o que o trouxe ao Brasil. Ouvir a resposta dando um sorriso. Se despedir - o que sempre dói, a menos que você escreva. Escrever é deixar as coisas idas virem a uma nova forma, que você não escreve sem um corpo. Desista de se odiar, se for o caso. Olhe suas feridas mais íntimas, chore, sinta raiva profunda do estar vivo. Então você terá forças, quem sabe, para reconsiderar. /// Publicar um anúncio no jornal de domingo: "procura-se homem ou mulher com densidade em vida. Entre em contato através das ruas. Recompensa: ouvidos atentos e cheios de fome". Ler, mais uma vez, a Balada das Arquivistas, do Vinicius. Deixar lembranças boas virem. Ficar em silêncio em casa. Na sua casa. Saia de casa, se despeça da sua mãe e do seu pai. Agradeça a ajuda em todos os tempos e explique que você tem sua própria vida e tem pressa. Pode dizer também que eles estão mais livres agora. E que isso é um gesto de amor. Ler sobre o amor. Desconfiar do que dizem sobre ele. Se ler alguma coisa em algum blog, pode ter certeza: provavelmente é um lixo. Falar no amor é um erro. Senti-lo pode ser outra coisa. //// Reúna seus amigos e ofereça um poema. E cigarros. Proponha uma loucura pelo menos uma vez por semana. Analisar a culpa. Conversar com um amigo sobre ela. Tentar subvertê-la. Procurar forças para transgredir coisas óbvias. As coisas óbvias são feitas de cansaço. Viver denso é difícil, você deveria saber. Escrever uma peça. Se da primeira vez não der certo, esperar a vida acontecer mais um pouco e tentar de novo. Algumas coisas se demoram no prestes a. Ver o sagrado no vir a ser. Chamar isso de deus. Investigar o que seria um poeta. Talvez você descubra que também é um. Pensar a arte, o que naturalmente é uma coisa grave. Pensar no pensar. Ler Nietzsche sem medo. Comprar um livro novo, caso você tenha dinheiro. Ou peça livros de aniversário. Dizer assim: "olha, me dê o livro que mais te assustou na vida". Alguns vão dar a bíblia, outros um livro de poemas. Outros podem não dar nada e vão dizer: "me desculpe, eu não sabia o seu gosto". Explique, com calma, que você também não sabe. ///// Ouvir a música do vizinho. Imaginar por que ele escolheu aquela. Procurar a operação que a morte faz nas pessoas. Principalmente naquelas que você ama. Ou sente vontade de amar. Criar forças para criar. Não ter medo de olhar para coisas novas. Não ter medo de esquecer. Perceber que o corpo real será sempre inteiro. //// Ter cuidado com as mulheres. Se você acordar todo o dia pensando amar uma mulher com um certo nome, prestar atenção. A menos que ela esteja na mesma cama. E nua. Não amar idéias tanto assim. A realidade é mais difícil que suas fantasias, naturalmente. Mas a realidade é real e legítima. /// Reler seus textos e verificar que eles não estão num tom Pedro Bial. Se estiver, apagá-lo. Ou arranjar um jeito de fazer ironia. //// Desconfiar. Ter os olhos como os atores brechtianos. Aliás, ler Brecht. Ver um filme do Godard, mesmo que não haja companhia. Ir ao cinema sozinho pode sempre ser melhor. Acordar um dia e decidir viver. Não ter medo do que isso vai custar. A liberdade sempre vale mais (meu nome é liberdade e o nome da noite também). Pensar no nome das coisas. Caso elas não tenham nome, inventar. A invenção é necessária, porque as coisas não bastam. Por isso sempre haverá poesia. Mesmo que não exista homem, nem humanidade. // Não acreditar neste texto, porque ele parece uma receita. Não acreditar em receitas. Ser a si mesmo. Um bolo se faz com receita ou com olhos? Descobrir o absurdo. Em você e no outro. //// Há dias que não suportam a própria vontade. Levantar. Acordar. Como haverá a morte, será preciso ser grande. Ser grande, amplo e largo. Não ficar só no desejo, porque ele mesmo não diz nada. Abrir a porta, sair. Todos os dias podem ser sexta-feira.
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2 Comentário(s):
Adorei o texto, Patrick! Bateu uma super vontade de sair de casa sem rumo e fazer tudo que der na telha! Muito inspirador =)
nice work ;)
Que bom que gostou, Gaby!! Estou pensando aqui também em fazer alguma coisa, haha.
Beijo,o
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