(Projeto para uma peça. Não sei se irá continuar. Nem se quero continuá-lo.)
Entramos no palco. Há Duas pessoas conversando. Elas se olham nos olhos.
ELA: Porque será preciso desconstruir as coisas. Deixar a pele delas à vista.
ELE: Ver dói.
ELA: Ver é o que nos resta.
ELE: Ver nos salva.
ELA: ...
ELE: Estou com dificuldade. Sinto que é preciso esforço para falar disso. Eu quero falar no ódio.
ELA: Eu quero dizer que eu amei uma mulher em mim.
ELE: Quero, doendo, dizer que: meu ódio a matou, antes que ela viesse. Antes que eu a visse.
ELA: Nós não somos duas pessoas. Isso não é um diálogo.
NÓS: A coisa com ela nasceu e morreu em mim-só. Ser sozinho é uma voz nos dizendo para viver. O ódio foi maior, deus, como foi. Agora vejo o quanto deixei as coisas em mim. Como fui o ideal absolutamente. Não ser nós. Ser um. Ser eu.
EU: Como as coisas minhas me foram mais importantes que a coisa outra. Nisso, eu não soube amar. Eu não sei. Aprender, finalmente. Olhar o ódio na cara. Vou pegá-lo pelo colarinho, levantar o meu ódio para eu o ver. Chorarei inevitavelmente, que viver sempre dói mais. Vou olhar o ódio: descobri-lo: tocá-lo até quase não suportar. OLHAR O ÓDIO! DESCOBRI-LO TODO EM MIM E EM CARNE. É preciso – deus – é preciso dizer que meu ódio foi maior que eu, ou foi do meu tamanho todo. E o amor, que eu tanto quis, que eu tanto desejei, ficou por ser. Ficou prestes a. Eu nunca alcancei o amor. Digo que eu nunca te amei. Porque me foi impossível te amar. Não ser só eu mesmo. Ser tudo que existe em mim.
CORPO: O meu amor, o nome do meu amor era uma lata cheia de eu-só, cheia de não-amor, repleta de outra coisa que não era eu sabendo olhar os seus olhos. Pensar na história mais uma vez. Recolher os meus nomes que diziam algo sobre o amor. As pessoas. Os cheiros corporais. Lembrar o rosto da mulher. Reconhecer que eu não o enxergava. Ódio, ódio: maldito seja eu a mim mesmo! Tomar o ódio à mão. Olhe para ele. Não sei se estou vendo alguma coisa. Não sei se fui capaz de te olhar, meu amor. Por vezes, não sei mesmo se fui capaz de olhar.
CORPO: Olha: eu preciso esperar novo no meu corpo. Eu preciso pensar no como te amar novo. Eu fui ódio. Agora eu poderei fazer o novo real. Agora eu me quererei ser outro sendo eu mesmo: deixar o outro ser o outro ele mesmo. Estou fazendo um novo nome. Estou inventando em mim a minha própria coisa. Estou querendo ser real. Estou querendo criar corpo, que o corpo é um pedaço meu do infinito.
(10/01/2011)
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