sábado, 16 de abril de 2011

Nota nº 62

Será preciso ter cuidado com os olhos. Especialmente com eles. Quando olho alguma coisa grande, tomo cuidado para não me ver a mim mais do que à coisa grande. Quero ser legítimo no olhar para ela. Quero ter corpo para olhá-la. Quero vê-la sem me confundir em dor com ela. Como num grito. Em desespero e em vazio (de quê?). Tomo uma foto à mão. Uma foto que ela a foto só. Não deixo de ser, a foto me agrada e cai em mim como larga. Não diminui-la a uma dor minha. Trabalhar denso para a foto não ser uma dor minha. Trabalhar fundo para a foto vir a ser. Que vejo? Sinto vibrar o mundo no olhar para ela. Que guarda as coisas que me deixam mais corporificado em mim nela? Uns olhos. Um cinza. Um verde prolongado. Como se alarga um verde? Com que força? Com que olho? Quais olhos me bastarão para ver a energia desta foto? Em que sentido a personagem dela me fascina? Mas agora vejo isso a um nível outro. Diferente dos anteriores. Sinto que escrevo sem dizer coisas concretas. Mas faço isso por vontade, lucidamente. Falar com a boca toda aberta pode ser perigoso. O susto há, o medo há. Há acima de tudo a possibilidade de eu ser doente, mas eu quero ser amplo. O silêncio, por vezes, ajuda. O amor me diz coisas. Não falo sobre o amor. Não sobre o amor. Minha vontade me quer a mim nova coisa. Novo corpo. Que sinto olhando esta foto? Vejo um corpo inteiro e mulher. O entorno me diz passado e cores desbotadas. O que agiu no desbotar das paredes? Com que volência as coisas se foram? Olhar o que vejo leve. Deixar isso me vir cheio energicamente. Que quero com esse texto? O quê? O quê?

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