Estou num restaurante. Saí comigo hoje porque queria sentar de frente para mim, dividir um guaraná. São quatro, quase cinco horas da tarde, o que me oferece um restaurante vazio. Aqui me encontro comigo. Ninguém entrará pela porta, ninguém entrará ofegante: "desculpe se me atrasei". Eu não espero ninguém e por isso ninguém se atrasa. Estou feliz. Se alguém me vir pela janela e decidir aparecer eu vou abrir um sorriso branco. Vou perguntar se deseja sentar. Conversaremos. Mas isso não está a me ocorrer e minha companhia sou eu.
Há um grave entendimento do amor. Esperamos o ser feliz estático em um amor e fatalmente nos perdemos à própria vista. Não vou amar ninguém sem ser sozinho. Na experiência do bastar-se o outro existe. O outro, genuinamente. Não creio poder ter o outro à vista na medida em que me não tenho. No estar sozinho, há uma cadeira vazia à minha frente. Não fosse isso, haveria um fantasma sentado. Sua boca abriria como quem quisesse dizer algo, mas nunca falaria nada. Estar sozinho é ter uma cadeira vazia diante de si. De outra forma, não existiria cadeira, apenas uma porta incompleta. Minha ausência faria aquela porta incompleta. Estar sozinho é ter uma porta e uma cadeira vazia. Disso me é feito o amor.
Nos tempos do amor cortês, os cavaleiros amavam as mulheres porque isso os faria mais nobres. À parte isso, as mulheres amavam - como um segredo - os poetas, que, para eles, o amor não dava nada e era inteiro por isso.
Nesta tarde, sinto-me capaz de amar-te inteiro, musa inesperada. Por não te conheceres, és possível. Se vieres, estarei sentado neste restaurante, haverá uma cadeira vazia que te não espera e por isso te recebe. Senta-te à minha frente que desejo levar o amor a um novo nome. Por te ver inteira, vejo-te. Senta-te sem mistério diante de minha inevitável solidão. Terás Deus no corpo, e voz.
Ser sozinho para existires genuinamente como uma pedra.
A pedra ensina amar.
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